Repensando nossa missão Fevereiro 28, 2008
Posted by wandre in Devocionais, Evangelho, Graça, Reflexões.trackback
Lembro de um tempo quando os jovens cristãos ficavam se perguntando se Deus lhes havia chamado para missões. Isso significava, no entendimento deles, ser enviado para alguma terra distante para pregar o Evangelho.
O fato é que você está lendo este artigo, em parte, porque pessoas se dispuseram a sair de onde estavam e vir até o nosso país trazendo a mensagem do Evangelho. Por elas, nós agradecemos a Deus.
Eu sei que existe uma visão mais tradicional sobre este assunto de missões, que eu respeito; mas que, praticamente, dissocia missões da vida cotidiana das pessoas.
Ou seja, para fazer missões você tem que sair de onde está e ir a algum outro lugar. Não é algo que faz parte do seu dia a dia, é algo à parte dele. Quase nunca é visto como algo que você faz onde está, mas sempre onde você ainda não foi.
É, por exemplo, aquela missão que a igreja-instituição faz dentro de certos moldes e padrões que passaram de uma geração para a outra; aquela que se tornou matéria nos Seminários e Cursos teológicos, e que podem até ser divididas, didaticamente, em missões urbanas, transculturais, dentre outras.
Em resumo, eu estou falando daquele entendimento de missões que acontecem sempre através de organizações ou instituições e sempre onde eu ainda não estou.
Só como comentário, eu fico pensando em como as pessoas estão sempre preocupadas com o que ainda não estão fazendo, ao invés de agradecer pelas oportunidades que já estão tendo; estão, sempre, se culpando pelo que não conseguem alcançar, ao invés de celebrar aquilo que estão alcançando, mesmo que seja pouco, aos olhos dos outros.
Bom, antes de tudo, eu preciso dizer que eu respeito o trabalho destas pessoas que se envolvem com missões, dentro destes padrões tradicionalmente aceitos. Tenho amigos e amigas envolvidas em trabalhos assim. Sei que há muita gente boa, sincera e amada fazendo este tipo de trabalho. E eu faço questão de dizer que os respeito profundamente.
Mas, eu creio que, na verdade, todos nós estamos em missão, simplesmente, porque em Deus, vivemos, nos movemos e existimos. Nossa missão é ser em Deus, é viver em Deus, é existir em Deus e compartilhar Sua vida, amor e misericórdia com todos, em todo tempo e em todo lugar, de todas as maneiras possíveis.
Estamos todos em missão, porque onde estamos somos expressão do reino de Deus. Somos sal da terra e luz do mundo. Enquanto caminhamos, somos membros do Corpo de Cristo - como escrevi antes, em todo tempo e em todo lugar.
Daí que minha missão, acima de tudo, é ser a pessoa que Deus me criou para ser; viver a vida que Ele me criou para viver; expressar Seu amor e graça e a boa notícia que Deus estava em Cristo, reconciliando consigo mesmo os homens, não lhes atribuindo os seus pecados, e nos confiou esta mensagem de reconciliação - não como um dogma, uma doutrina ou uma crença, mas como um relacionamento. Porque a mensagem fala de reconciliar, unir de novo, reatar, trazer para perto o que estava longe.
E eu creio que isto acontece no caminho da vida, na estrada da existência, enquanto vivemos e onde quer que vamos ou estejamos. É ali onde somos embaixadores de Deus, como se o próprio Deus rogasse, através de nós, que as pessoas compreendam que tudo que precisava ser feito já foi feito em Jesus. A dívida já foi paga. Tudo foi consumado. Agora, o Pai convida todos para a festa. A festa da reconciliação, do perdão, da graça, da misericórdia, da compaixão, da vida. E esta festa é pra quem quiser e pra quem vier. Agora, depende que você venha. Venha e receba. Venha e beba de graça da água da vida.
É o céu se reconciliando com a terra. É Deus se reconciliando com os homens. São as barreiras que separavam indo à baixo, pelo sangue que Jesus derramou na cruz. É Deus fazendo de todos um só povo em Cristo, onde não há mais judeu e nem grego. Os preconceitos acabam. As trincheiras desaparecem. Deus se reconcilia com o homem e o homem se reconcilia com Deus, com o próximo, com a Criação e consigo mesmo.
Costumo dizer que a vida com Deus se vive na história dos homens e não fora dela. É claro que o Espírito de Deus pode nos enviar para anunciar a boa nova de Jesus em lugares e terras distantes, como fez em Atos e por toda a história da Igreja.
Ele ainda faz isso, com certeza. E faz isso de muitas maneiras, quando quer, com quem quer e como quer. Mas é Ele quem faz e das formas mais únicas possíveis.
Nos nossos dias, você pode ir muito longe, tanto pessoalmente, como pode ir através das ondas de uma rádio, da tv, da internet, de livros, de cds, de fitas, de cartas, de e-mails, de uma sala de chat e acima de tudo da oração.
Mas, para mim, o que mais faz a diferença no levar adiante as boas novas de Jesus, é cada um, no seu dia a dia, na estrada, na jornada, no caminho, compartilhando a vida e o amor de Deus.
É claro que há as viagens missionárias de Paulo e que elas são importantíssimas, mas, a opinião de diversos historiadores da História da Igreja, é que foi a semente do Evangelho, sendo semeada, de forma simples, espontânea e quase imperceptível - em toda parte, por todos os lugares e de todos os modos - que saturou o mundo daquele tempo com a mensagem de Jesus.
Foi o que Jesus falou quando contou Suas parábolas sobre o reino de Deus. O que faz a grande diferença é o pouquinho que cada um vai fazendo, no caminho da sua existência.
Nem todos tem o mesmo dom ou oportunidades, mas todos fomos chamados a sermos testemunhas de Jesus. Por isso o Espírito Santo foi derramado sobre nós. O que precisamos é ter consciência do nosso chamado como gente que Deus alcançou por Sua graça e repartir esta graça com quem está ao nosso redor.
Lembro do dia em que eu orei com uma pessoa recebendo Jesus, que morava na ilha de Creta (aquela onde Paulo foi parar após o naufrágio de Atos 27). Eu nunca foi lá, pessoalmente, mas levei a Palavra a uma pessoa naquele lugar, através da internet. Sei de pessoas que levaram alguém a Jesus, em uma sala de chat, e outras que o fizeram, através de cartas ou dando de presente um simples cd de mensagem ou um livro.
Ao mesmo tempo, sei de pessoas a quem Deus se revelou de modo, absolutamente, soberano e sem a intervenção de quem quer que fosse. Ele, simplesmente, interceptou a pessoa na estrada da vida e se revelou a ela. Por que? Porque Ele é Deus e só Ele sabe como vai agir na vida de cada um. Nós somos apenas cooperadores com Ele - porque é Ele quem opera.
Na verdade, o ide e pregai de Jesus é o indo, pregai. Porque não é algo que você faz de vez em quando. É no caminho. É na estrada. É na jornada. É aprendendo a responder com sabedoria a cada um. É aprendendo a respeitar e amar as pessoas que Deus ama, independente de nossos sentimentos e gostos pessoais. É aprendendo, não a fazer proselitismo do nosso grupo, mas a chamar as pessoas para esta festa do Pai.
E isto, repito, acontece na jornada da vida. Cada um tem a sua própria. Cada vida tem o seu caminho com Deus. Cada um tem um modo único de expressar a vida de Deus. Mas todos somos enviados, pelo Espírito de Deus, a viver o amor e a graça de Jesus que nos alcançou. Todos somos enviados a quem está no nosso caminho, como o samaritano da história que Jesus contou. E, alguns, são capacitados, inspirados e enviados por Deus a lugares, grupos, etnias e regiões específicas.
Mas, missão não cabe num padrão único, não tem haver com uma definição que a igreja evangélica criou ou com um estilo ou modelo qualquer que ficou estabelecido como sendo o modo como Deus age e se move no mundo. Deus é grande demais para isto. Aquilo que Ele faz não cabe dentro de um rótulo.
Graças a Deus por todos os missionários e missionárias que estão em terras distantes e por todas as agências e movimentos missionários, através da História, que levaram e levam, de fato e de verdade, única e exclusivamente, o Evangelho de Jesus àqueles que nunca o ouviram.
Graças a Deus por eles. Com certeza, nós oramos por eles e queremos que possam ser supridos e fortalecidos em seu trabalho. Que cada pessoa que crê e segue Jesus possa lembrar-se de orar por estas pessoas.
Mas, basta ler as biografias de diversos homens e mulheres que caminharam com Deus através dos tempos e a história de diversos povos e civilizações, que vamos enxergar uma extraordinária liberdade e leveza do Ser de Deus.
Jesus era assim. Deus é livre. Sopra onde quer. Se revela a quem quer. Fala. Se manifesta. É absolutamente soberano e Senhor da vida e da História. Não se restringe a nós. Conta conosco, quer nos usar, nos chama e capacita - mas, continua livre e Deus.
Ele chega antes mesmo de quem está “fazendo missão”, como foi com Cornélio e toda a sua casa. Ele Se revela a pessoas que nunca iríamos imaginar, como fez com Jó, que viveu sua fé, não a partir da revelação que Deus deu a Abraão (pois, muito provavelmente, viveu antes dele). Jó viveu da revelação que o próprio Deus deu a ele.
Ou, como fez com Melquisedeque, o rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo e que quando se encontra com Abraão, este reconhece que ambos estavam adorando o mesmo Deus (Hebreus fala que Jesus é sumo-sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque e não de Levi, descendente de Abraão).
Isso, significa, apenas, que Deus é livre para se revelar quando quer, onde quer, para quem quer, do jeito que quer e para não dar satisfação a quem quer que seja. Ele é Deus. E ponto final.
Veja como Ele se revelou aos magos que vieram seguindo uma estrela ( porque era só de estrelas que eles entendiam ) e chegam até Jesus para adorá-lo. Deus usa a Igreja, mas não está limitado a ela. Ele é Deus. Senhor. O Eterno Eu sou. Aquele que é, que era e que há de vir. Um Deus que nos ama de um modo extraordinariamente incompreensível, absurdamente arrebatador. Ele é absolutamente livre, sem preconceitos e sem fronteiras para amar.
Eu entendo o Evangelho como a graça de Deus se manifestando aos homens. O Verbo se tornando gente e habitando entre nós, cheio de graça e de verdade. Sem modelos humanos, sem fórmulas, sem padronizações, sem afetações, sem engessamentos; mas, completamente, livre, incontrolável, apaixonado pela vida e pelas pessoas que criou; sem aparências, sem buscar a glória dos homens, manso e humilde de coração.
É este Jesus que eu prego e é nEle que eu creio. Tão livre que as pessoas que buscavam algo já preconcebido e dentro dos padrões não conseguiam compreendê-lo. Mas, não é para compreender, é para aceitar pela fé. É para celebrar e agradecer. Porque é favor que nunca merecemos e jamais vamos merecer.
Que vivamos a missão na vida, que a vida seja missão, que a missão seja vida, que tudo seja simples e expressão do amor de Deus por nós. Nós o amamos porque Ele nos amou primeiro.
Vamos levar a Palavra não só com palavras, mas com a vida, com a amizade, com a graça que repartimos com as pessoas, enquanto caminhamos. Nenhum de nós é perfeito e nenhum de nós já chegou lá, mas estamos todos caminhando. Todos nós somos vasos de barro com pés de argila, como escreveu Brennan Manning.
Então, enquanto caminhamos, vamos espalhando esta boa semente. Eu sei que podemos até estar chorando (somos humanos), mas se continuarmos a semear; vamos, um dia, nos alegrar ao ver que nossas lágrimas não impediram a semente de frutificar - pelo contrário, regaram a nossa semeadura para que ela frutificasse.
Podemos abençoar muita gente, mesmo quando estamos sofrendo. Porque o vaso é de barro, mas há um tesouro dentro dele: Jesus.
Pense nisto.
Pr. Paulo Cardoso

















Comentários»
No comments yet — be the first.