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AMOR DESVAIRADO - RICARDO GONDIM Março 10, 2008

Posted by Carlos Barreto in Devocionais.
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 As palavras, as sentenças, se desgastam; iguaizinhas aos tecidos, envelhecem e não agüentam um puxão. Quando uma declaração religiosa, por exemplo, vira clichê, ela não só pára de comunicar conteúdos belíssimos como chateia feito matraca.

Arrisco-me a escrever mais uma declaração que pode parecer vir do lugar comum religioso, mas não tem problema. Lá vai: todas as pessoas são amadas de Deus, independente de serem religiosas, atéias, boas, ruins, competentes, claudicantes. Sobre esta afirmação, qualquer um pode se sentir livre para trabalhar a sua humanidade sem medos, culpas ou tabus.

Atrevo-me a dizer mais: não existem engrenagens espirituais de prêmio e punição que forçam as pessoas a fazerem o bem ou a fugirem do mal. As cobranças, com normas punitivas, não podem ter força de organizar a vida. Em outras palavras, ninguém precisa temer as ameaças oriundas de uma lei moral, mesmo eterna.

Mando um recado para os neo-pentecostais: não se amedrontem com possíveis ataques do diabo; ele nada pode contra os filhos de Deus senão infundir medo; seu melhor desempenho se resume a gerar paranóias espirituais.

A bondade de Deus vem sobre todos indistintamente, e sem méritos. Inclusive, estas declarações podem ser instrumentalizadas para legitimar até perversidades e horrores. Permaneço convicto de que o pior crápula, o mais perverso e inclemente ser humano, vive debaixo do cuidado de um Deus que não é ranzinza; seu favor vem caudalosamente. Indistintamente, o sol brilha, a noite chega, a chuva molha.

Vou além: a sorte do mais piedoso santo não obedece a uma lógica de prêmios e vantagens. Os humanos não vivem presos numa cadeia de causa e efeito. Deus não solta gafanhotos sobre ninguém – mesmo quando as pessoas se comportam como bandidas, ele insiste em sua benignidade – “é a bondade de Deus que conduz ao arrependimento”. Deus vela afetuosamente pelos humanos - bons e ruins; ele não faz acepção.

Deus não desgraça a vida financeira dos avarentos – eles é que atolam em seus egoísmos. Mesmo quando alguém prefere ser infiel, Deus permanece fiel. O Todo-poderoso não atrela seus atos às oscilações emocionais ou comportamentais das pessoas; ele não dá as costas aos que erram. Deus é paciente com todos, pois conhece a nossa estrutura e sabe que somos pó.

O amor de Deus é incondicional, sua graça, absurdamente ilógica; sua bondade, estupidamente despretensiosa; sua benignidade, além de uma contabilidade com depósitos e saques.

Se essas afirmações forem usadas como justificativa para comportamentos malignos – já foram muitas vezes-, ainda assim, Deus não abre mão da liberdade que concedeu aos humanos. Ele não temeu a dor de soberanamente criar filhos assim, com vontades; ele deseja que livremente o conheçamos como um Pai amoroso e bom.

Ainda bem que esta liberdade radical também é usada por aqueles que desejam desenvolver a sua humanidade; só os autenticamente livres amadurecem e aprendem a conviver com o próximo. Para acontecer, a vida precisa de liberdade –sem remorsos, coações, subornos.O Evangelho de Jesus de Nazaré propõe uma liberdade radical, sem a tutela da lei, sem prêmios e sem ameaças.

A pergunta é: caso fossem retirados os imperativos divinos e sobrasse apenas a sacralidade da vida, quem se atreveria a fazer o bem, a defender a justiça e a proteger os frágeis? Se alguém gasta sua riqueza e ajuda, mas com a intenção de prosperar, ele não é nobre, apenas esperto. Se alguém almeja ser santo para ganhar algum galardão no céu ou uma vida melhor numa possível reencarnação, ele não é digno, apenas interesseiro. Se alguém quer andar sobre a risca da lei com medo de possíveis ataques do diabo, ele não é verdadeiro, só covarde.

O cristianismo propõe outra têmpera para a vida. Jesus anunciou a chegada de um Reino diferente; o propôs, chamando-se de Filho do Homem, para que toda a humanidade se empenhasse por esse Reino - mesmo os que não conseguem acreditar em Deus.  A sua pregação é um mandado para que cooperemos na construção de um mundo mais justo e humano, mesmo que Deus não exista e não haja qualquer recompensa – ou punição - além da morte.

O imperativo ético de cuidar do jardim da vida é universal e esta tarefa precisa se dar com liberdade - que também pode ser chamada de Graça.

Soli Deo Gloria.

Comentários»

1. tania - Maio 7, 2008

amo-te samuel