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Religião e teorias do Tudo (Leonardo Boff) outubro 8, 2007

Posted by Alexandre Araújo in Artigos, Outros.
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Há um anseio irreprimível no espírito humano por uma visão total e por uma ordem que permanece mesmo dentro das desordens que constatamos. Concretamente vivemos no fragmento. Mas o que buscamos, na verdade, é o Todo. Os grandes sistemas religiosos e filosóficos procuram construir visões totalizantes do ser, de sua origem, de seu devir e de sua plena manifestação.

A ciência moderna não escapa desta insaciável busca. Desde que Newton introduziu a efetiva matematização da natureza, surgiu o intento de uma “Teoria de Tudo” (TOE: Theory of Everything), também chamada de “Teoria da Grande Unificação” (TGU), ou a “Teoria-M” (Mater), um quadro geral que abrangesse todas as leis da natureza e que nos brindasse com a explicação final do universo.

Há dois livros clássicos que resumem os caminhos e descaminhos desta questão: o de John D. Barrow, Teorias de Tudo – A busca da explicação final (Zahar, 1994), e o outro de Abdus Salam, Werner Heisenberg e Paul A. M. Dirac: A unificação das forças fundamentais – O grande desafio da física contemporânea (Zahar, 1993). Sabemos que os últimos anos de Albert Einstein foram dedicados, quase obsessivamente, a esta questão, sem alcançar nenhum resultado satisfatório. Recentemente a questão foi retomada com especial vigor por Stephen W. Hawking em seu recente livro Uma nova história do tempo (Ediouro 2005).

Logo no início, dá-se conta da dificuldade desta tarefa, pois, consoante a mecânica quântica, o princípio de indeterminação parece ser a marca fundamental do universo assim como o conhecemos. Como enquadrar realidades que são, por princípio, indetermináveis, bifurcáveis e potenciais numa única fórmula? Confessa:

Se realmente descobrirmos uma teoria completa, seus princípios gerais deverão ser, no devido tempo, compreensíveis para todos, e não apenas para uns poucos cientistas. Então, todos nós, filósofos, cientistas e simples pessoas comuns, seremos capazes de participar da discussão de por que é que nós e o universo existimos. Se encontrarmos uma resposta para essa pergunta, seria o triunfo último da razão humana – porque, então, conheceríamos a mente de Deus (p.145).

A ilusão destas teorias é imaginar que tudo pode ser reduzido à física (clássica ou quântica) e traduzido na linguagem da matemática. A realidade, no entanto, se apoia, sim, na física, mas vai muito além dela. Por isso, John Barrow modestamente reconhece:

Não encontramos nada de matemático com relação a emoções e julgamentos, música e pintura (p.272).

Toda a vida cotidiana, o que move os seres humanos em sua busca de felicidade e em sua tragédia não cabem na concepção física do “Tudo”. Pouco se me dá a imensidão dos espaços siderais cheios de pó cósmico, de grávitons, elétrons, neutrinos e átomos, se meu coração está infeliz por não poder dar amor a quem amo, por ter perdido o sentido da vida e não encontrar consolo junto a Deus.

Aqui, outro é o discurso e outros são os especialistas a serem invocados. Destas questões de vida e de morte falam os textos sagrados de todas as religiões e das tradições espirituais. Talvez o místico William Blake (1827) nos inspire, pois na parte nos faz surpreender o Todo:

Ver o mundo num grão de areia/ e o paraíso numa flor do campo/ segurar o infinito na palma da mão/ e a eternidade numa hora.

Leonardo Boff

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