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SEM PERDER A ALMA outubro 22, 2007

Posted by Carlos Barreto in Geral.
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Fui privilegiado em conhecer heróis e heroínas da fé; gente que, para evangelizar, enfrentou o cinzento do sertão, a umidade inclemente da Amazônia e o frio gaúcho. Já me arrepiei com o denodo de pastores que sobem morros perigosos, com a persistência de rapazes que dedicam tardes de domingo visitando hospitais, presídios e sanatórios, com a ternura de mulheres que cuidam de orfanatos.

Contudo, do mesmo modo, testemunhei horrores praticados em nome de Deus, escandalizei-me com evangelistas escarnecendo de paralíticos, revoltei-me com a manipulação exagerada de falsos milagres. Espantado, presenciei evangelistas ávidos por demonstrar o tamanho de sua unção, inventarem manifestações sobrenaturais.

Depois de conhecer os bastidores de algumas igrejas evangélicas, percebi o risco de tornar-me cínico. Diante de tanta ambigüidade na esfera religiosa, eu poderia aprender a me comportar como uma hiena, sarcasticamente rindo por dentro perante tanto paradoxo. Sei que é possível desdenhar de tudo o que se faz em nome de Deus. Confesso que às vezes dá vontade mesmo de zombar dos arroubos ufanistas daqueles que tentam me fazer embarcar em projetos megalomaníacos.

Depois de tanto perambular pelos corredores religiosos, pregando em congressos e ouvindo conversas, conscientizei-me de que preciso guardar o coração. Infelizmente, convivo com tantos doentes espirituais que também corro sério risco de me desumanizar. Sei que posso sucumbir à tentação de ganhar o mundo inteiro e, no processo, perder minha alma; posso me despersonalizar só para ter trânsito denominacional.

Conheci líderes com traquejo nos palcos religiosos, mas que já não beijam seus filhos há tempo. Posso citar vários que nunca leram poesia, jamais contemplam a beleza de um pôr-do-sol, não jogam bola com os netos e desconhecem a alegria de se deixar conduzir por uma melodia calma; muitos esqueceram que é possível ouvir o inaudível no cicio de uma brisa.

Vez por outra eu me flagro assaltado pelo farisaísmo, por isso dou de ombros para a vida em nome da minha instituição. Também me assombro quando me vejo armando esquemas para ganhar algum reconhecimento. Entristeço-me quando percebo que ambiciono ter o status de messias. Fui tardio em desconfiar que meu ambiente religioso fosse tão perigoso e não me precavi do fermento dos fariseus.

Para não asfixiar a alma, senti a necessidade de achar respiradouros onde pudesse renovar meu ser.

Assim, passei a ler diversificadamente. Aprendi a gostar de poesia, biografias, romances e crônicas. Hoje, sonho ao lado de mestres das metáforas como José Lins do Rego; compenso a crueldade do mundo viajando pelos universos paralelos imaginados por gente como Tolkien, Gabriel Garcia Márquez e Rachel de Queiroz; refresco meu coração com a sublimidade poética de Vinicius de Moraes. Em minhas tristezas, sinto-me atraído pelos Salmos de Davi e por Fernando Pessoa.

Assim, procurei ritualizar minhas refeições. Hoje, almoço sem pressa. Quero consagrar cada abraço que dou e recebo, e considerar meus presentes como sacramentos do cuidado de Deus. Como alquimista, busco transformar cada instante de minha breve vida numa gostosa saudade.

Assim, desejo aprender a conversar despretensiosamente com meus amigos. Hoje sei que preciso antecipar-me aos meus inimigos para poder oferecer-lhes um pedaço de minha paz e pedir que me ajudem a construir pontes.

Assim, anseio por ler a Bíblia sem a obrigação de conseguir tirar “verdades práticas” do seu texto. Tenho sede de meditar vagarosamente nas histórias, parábolas e ensinos dos dois Testamentos. Ainda hei de descobrir o que o salmista quis comunicar quando escreveu: “Provai e vede que o Senhor é bom”.

Assim, aspiro aprender a calar-me na presença de Deus. Hoje, quero exercitar-me na oração contemplativa. Reconheço que ainda engatinho nessa disciplina espiritual, mas anelo aprender o sentido mais profundo do batismo no Espírito Santo.

Eu já quis ganhar cidades, mas hoje tenho um projeto mais fascinante: luto para preservar meu coração.

Ricardo Gondim

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