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PERDAS E GANHOS ( Ricardo Gondim ) dezembro 12, 2007

Posted by Carlos Barreto in Geral.
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Na vida, a gente coleciona perdas e ganhos.

Lamento, perdi muitos amigos. Alguns voltaram para casa, outros se exilaram, mas a maioria foi carregada pela enxurrada do tempo. Meu companheiro, George Pechlivannis, o grego, diluiu-se em Tessalônica e numa mais tive notícias suas. O David Pennington, que estudou ao meu lado no Gênesis, foi para a Nova Zelândia e evaporou-se por lá. O Gustavo pulou de um andar muito alto do edifício que morava, não vôou, e espatifou-se.

Lamento, perdi os meus parentes. Dos avôs paternos, guardo meros rabiscos de memória. A vovó Leonor vem e desaparece como uma estação de rádio mal sintonizada. A tia Deta amofinou-se com sua profunda dor, e foi sepultada enquanto eu viajava. Mamãe contaminou-se com um câncer agressivo, e nada pude fazer. Papai acabou-se como um livro velho e amarelado, que se esfarela com um simples toque.

Lamento, perdi os meus encantos. Torci pela seleção nacional de futebol e até chorei em 1982, quando a Itália do Paolo Rossi nos humilhou. Hoje, vejo os jogadores como meros profissionais, frios e distantes das expectativas do povão, que sofre na arquibancada.

Como filho de um preso político, aguardei o dia em que os civis governariam o país. Embora continue acreditando no regime democrático e de direito, já não consigo militar por qualquer partido político. O Partido dos Trabalhadores, o PT, tornou-se minha mais retumbante decepção. Como cobiçou o poder a qualquer preço, precisou fazer coalizão com as oligarquias mais retrógradas e mais interesseiras do planeta. Portanto, não acredito que as atuais agremiações, que os atuais políticos, ou que as atuais instituições civis e militares, tenham interesse altruístas. Os poucos homens íntegros deste país são caçados, marginalizados ou, literalmente, apagados – os Chico Mendes e as Dorothys que o digam.

Lamento, perdi meus entusiasmos religiosos. Em minha juventude, entreguei-me, com todas as minhas forças, ao movimento evangélico que considerava um legítimo mover de Deus. Sofri horrores para poder estudar nos Estados Unidos. Já que as pessoas que haviam me prometido uma bolsa de estudos fracassaram, trabalhei com zelador e vigia noturno durante um ano inteiro. Depois, já casado e já bacharel em Administração de Empresas, lavei banheiros, empilhei fardos de feno e catei pedregulhos em plantações. Eu nunca quis deixar faltar para minhas duas filhas enquanto me dedicava à pesquisa teológica e à pregação do evangelho.

Acreditei que aqueles empreendimentos evangelísticos cumpriam o “mandado” de Cristo – também chamado de “A Grande Comissão”. Agora, olho para trás e vejo interesses pessoais camuflados de “amor pelas almas”; vaidade de conquistar sucesso travestida de “unção”; tagarelice confeitada de “defesa da ortodoxia”.

Passados mais de trinta anos, o que se tornou hegemônico entre os evangélicos? Um pragmatismo que beira a neurolingüística; um simplismo que se condena à infantilidade; um autoritarismo que subestima o bom senso; uma arrogância que gera intolerância; uma ganância que se alimenta da “teologia da prosperidade”.

Mas, ganhei um coração de carne. Minha alma vem sendo renovada por um novo amor pela beleza. Estou aprendendo a absorver as cores fortes do Almodóvar, a me surpreender com a metáfora desconcertante do Lobo Antunes, a matutar com a delicadeza poética do Vinicius, a me inquietar com as inquietações do Pessoa.

Porém, ganhei lágrimas sinceras. Vagarosamente venho aprendendo a chorar. Minhas lágrimas já não brotam do remorso, mas da compaixão; não vêem da culpa, mas da solidariedade com o pobre. Aquele mendigo de Bombaim, abandonado numa sarjeta e coberto de lama, permanecerá em minha memória como um marco. Ele sempre me lembrará que o Deus bom e justo das Escrituras jamais planejou, antecipou ou condenou, bilhões de pessoas para morrerem daquela maneira.

O mundo do jeito que está, e como se organiza, é um acinte à glória de Deus, cuja vontade não é cumprida. Sendo assim, quero engrossar as fileiras de qualquer instituição que se esforçar para que paz e justiça se enlacem – até que chegue o Reino de Deus.

Contudo, ganhei uma existência menos messiânica. Não tenho o menor desejo de ser aplaudido por qualquer eminência religiosa. Não tenho o menor desejo de tornar-me um best-seller. Não tenho o menor desejo de ser chaleirado por gente que sabe ser simples na compreensão de conceitos e, ao mesmo tempo, sagaz na maledicência. Não tenho o menor desejo de vencer debates sobre a verdade com doutores puritanos.

Eu só quero viver despretensiosamente; deitar a cabeça no travesseiro com um cheirinho de “lá-de-casa”; acordar com um café fresquinho perfumando o quarto; pregar para minha comunidade de fé, sem medo de ser mal interpretado; fazer um “happy-hour” com meus filhos e netos; ler o que eu quiser, sem me interessar se aquele livro consta no “Index Evangélico”.

Acredito que vivendo assim, com leveza e integridade, caminho bem mais próximo da “vontade de Deus” do que na época em que tentava obedecer os “Dez Princípios Irrefutáveis para uma Vida Plena” que algum estrangeiro escreveu.

Entre perdas e ganhos, resta um homem grávido de esperança.

Soli Deo Gloria.

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