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CAIO, POR QUE VOCÊ NÃO FALA EM SANTIDADE? fevereiro 18, 2008

Posted by wandre in Cartas, Reflexões.
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CAIO, POR QUE VOCÊ NÃO FALA EM SANTIDADE?

Querido Caio, Acompanho-te há tempos e com muito carinho. Ocorre que hoje me deu um estalo: “Ué, o Caio não fala de santidade!” E aí? O papo da santidade ficou na Lei? Aguardo teu precioso retorno. Abraço forte, Ricardo, um paulista de 34 anos, formado em filosofia, que há nove meses está tentando seguir a Deus em “verdade verdadeira”, sem comprar pacotes pré-fabricados ou loucuras ditas pentecostais.

____________________________________________________________________________ Resposta: Meu amado amigo no Senhor: Mas vós sois dele, em Cristo Jesus, o qual para nós foi feito por Deus sabedoria, e justiça, e santificação, e redenção; para que, como está escrito: Aquele que se gloria, glorie-se no Senhor.

Inicialmente desejo dizer que não sei o que esses amados irmãos estão ensinando. Portanto, aqui, não respondo a eles, mas a você; e não quero que você ou ninguém leia isto como uma palavra minha a eles. Isto dito, quero responder apenas a você, e a quem quer que se interesse pela minha opinião sobre a questão.

Tenho mais de 113 livros publicados. Em dezenas deles trato do assunto no espírito do que aqui lhe direi, de modo mais que resumido. Afinal, é só uma carta, não um tratado. Pegue sua concordância bíblia e procure pela palavra “santos”, no Novo Testamento, e você verá que ela não ocorre como um esforço humano, mas como um novo estado no qual se foi posto na Graça; e que acontece em duas perspectivas: a primeira se relaciona ao que já está feito; ou seja: em Cristo eu sou santo, tanto quanto sou justificado e salvo.

A segunda perspectiva é aquela que faz a santidade ser o próprio crescimento do ser na Graça. Assim, santidade é saúde e é pacificação na Graça, conforme o entendimento que se obtém pela fé de que o que sou em Cristo, é o que vale; isto para que eu posso ir sendo…à medida em que cresço. Portanto, santificação é o apelido do crescimento da consciência humana na Graça.

Jesus não desenvolveu o tema como tema; já prestou atenção? E por que será? Não seria Ele alguém preocupado com a santificação?

É claro que tudo o que Jesus fez e ensinou é o caminho do santo. Mas Jesus não usou a palavra “santificação” em relação aos discípulos. Por que será?

A mim me parece apenas uma coisa: Jesus não via a santificação como nós a vemos, religiosamente falando. Para Ele santificação era o caminho do amor e da misericórdia; e não uma lista de coisas a se fazer ou deixar de fazer.

Santo, para Jesus, é aquele que não julga o próximo; que anda mais de uma milha com o inimigo; que dá a capa para cobrir o frio do adversário; que não passa ao largo quando vê um homem caído na estrada; que dá água com amor aos irmãos… como se fossem profetas ou o próprio Jesus quem bebesse; que trata o diferente, o estranho, como se fosse Jesus; que veste o nu, abriga o órfão, acolhe o desamparado, abre a alma ao faminto, e não se esconde seu semelhante.

Para Jesus, o santo não fala de santidade, mas de vida. Sim, para ele, o santo é quem crê; é quem busca a verdade, a justiça e a humildade. Santidade, para Jesus, é simplicidade; é se satisfazer com “uma só coisa”; é gratidão e contentamento. E, conforme Jesus, o santo é alguém livre para ir onde quer, para amar a quem ninguém ama, para transgredir a Lei a fim de tirar…mesmo que seja um boi… do buraco no qual caiu, ainda que o dia seja sábado.

Nossa visão de santificação é pagã, é farisaica, e cheia de justiça própria. Sim, o que chamamos de santificação é exatamente aquilo que os fariseus ensinavam: ser zeloso da lei. No texto de Paulo que citei no início está claro que “fomos feitos” sábios, justos e santos “em Cristo”. E por que?

Ora, Paulo diz: “Para aquele que se glorie, glorie-se no Senhor”. Santificação que não se enxergue como algo realizado na Cruz leva o suposto santo ao caminho da arrogância e da neurose.

Portanto, não falo a palavra “santificação” pelas mesmas razões que o Evangelho não a menciona: a audiência entende errado!

Santificação é maturidade; é não se escandalizar com mais nada nesta vida; é liberdade para viver todas as coisas lícitas tendo o discernimento de saber o que convém e o que edifica.

 Santificação é ter os olhos limpos, e, assim, considerar pura todas as coisas.

O santo não costuma falar em santificação, mas em Graça e Misericórdia.

Quem fala muito em santificação como uma conquista do indivíduo, em geral, está falando de suas próprias angustias e lutas.

Quem fala na Graça, fala em santificação; pois é somente na Graça que somos santos e santificados. Mas como a letra mata, no meio evangélico a “santificação” é o nome de nossa piedosa presunção; e, psicologicamente, é o nome de nosso surto neurótico de justiça própria—filha de um coração que não repousou na Graça—; e também é paranóia, que é o resultado de uma alma que teme, e que não abraçou para si o perfeito amor que lança fora o medo.

Então, meu amado, quando você me ler, saiba, quando falo da Graça de Deus conforme o Evangelho, estou falando de tudo. Para mim não existe uma coisa sem a outra. Não existe a “Divisão dos Santificados”. O Reino de Deus não é uma burocracia estatal, e a Graça de Deus não conhece fronteiras em nós. Só para terminar, eu diria o seguinte: O santo viverá pela fé. Ou seja: em confiança não em si, mas na Graça. E toda conquista interior que lhe aconteça, não é mérito, mas Graça de Deus sobre ele; e sobre tais conquista ele não fala, visto que se são verdadeiras, elas serão percebidas pelo fruto da vida, em amor e misericórdia.

Enquanto a santificação for uma doutrina moral, ela será a maior fabrica de neuróticos da religião, como esses dois mil anos de história cristã já nos mostraram. Sobre as loucuras pentecostais quero dizer algo. Realmente o ambiente pentecostal é extremante favorecedor de muitas doenças de alma, pois é um ambiente sem parâmetros, e onde o que qualquer maluco sente, se falado em nome do Espírito, passa como coisa de Deus; visto que quase ninguém olha para os conteúdos, mas apenas para os clichês. Além disso, o dês-compromisso da liderança com a Palavra, sempre ávida por novidades, abre o caminho para que as loucuras de circo-manicômio de instale como devoção. Todavia, o mundo das igrejas históricas e reformadas nem sempre anda muito melhor. Há muito legalismo judicioso no meio reformado. Tudo é mais “elegante”, mas a loucura das vaidades, do poder, das correções doutrinárias, e da pureza pessoal arrogante, estão lá presentes; e com resultados devastadores não para a mente—como é no meio pentecostal, de onde são egressos a maior parte dos internados nos Pineis da vida—, mas para a alma-sentir; pois as doutrinas fazem muito mal à alma, só que num plano onde as aparências não são loucas, mas o sentir é frio, e, por vezes, até perverso.

 Espero ter me feito compreender. Receba meu carinho e estímulo para que prossiga o caminho da verdade.

Nele, em quem somos santos, embora saibamos que é somente Nele,

Caio

24/02/2005

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